Teatro, cinema, dança, poesia e conversas a pé dentro de monumentos nacionais: é essa a resposta curta. No Algarve, essa cultura tem uma sigla — DiVaM, Dinamização e Valorização dos Monumentos — e um promotor: o serviço regional de cultura. A edição de 2023, dedicada ao tema «Patrimónios (Des)confortáveis», está documentada peça a peça e serve de exemplo para perceber o que o programa é e como o ler.
O que é o DiVaM
O DiVaM é a programação que a Direção Regional de Cultura do Algarve (DRCAlg) fazia acontecer dentro dos monumentos afetos a esse serviço, com um tema de reflexão por edição e projetos anunciados como pensados para os monumentos, em várias linguagens artísticas. Não é caso único: o arquivo do antigo portal regional regista páginas do programa pelo menos desde 2015.
Quem programa mudou de designação: com a integração dos serviços regionais de cultura, em janeiro de 2024, estas competências passaram para a Unidade de Cultura da CCDR Algarve, que hoje as divulga.
Em que monumentos acontece?
A edição documentada decorreu nos três monumentos afetos à direção regional: a Fortaleza de Sagres e a Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, ambas no concelho de Vila do Bispo, e as Ruínas Romanas de Milreu, no concelho de Faro.
Duas funções a separar: a guarda é nacional — dos 27 monumentos nacionais do Algarve, estes três estão sob tutela do Ministério da Cultura; Sagres é administrada pela Museus e Monumentos de Portugal, Guadalupe e Milreu pelo Património Cultural, I.P. — e a programação é regional. Num espetáculo DiVaM há duas entidades em cena: a que protege o monumento todos os dias e a que o convoca para palco.
O que coube num só mês de julho
Em julho de 2023, o teatro, o cinema e a poesia tiveram destaque, em atividades anunciadas como de entrada livre mediante inscrição. O quadro resume o mês.
| Data (2023) | Monumento | Proposta | Promotor |
|---|---|---|---|
| 2 de julho, 18h00 | Ruínas Romanas de Milreu | Teatro «De Miami a Milreu» | JAT – Colectivo Janela Aberta Teatro |
| 8 de julho, 18h00 | Ruínas Romanas de Milreu | «As Carpideiras», entre teatro e dança | Panapaná – Associação Cultural e Recreativa |
| 22 de julho, 17h30 | Fortaleza de Sagres | 3.ª sessão do ciclo de cinema «Libertar a Memória» | Cineclube de Faro |
| 23 de julho, 10h00 | Ruínas Romanas de Milreu | Palestra volante «Milreu: Olhar o invisível» | João Pedro Bernardes, Universidade do Algarve |
| 23 de julho, 11h00 | Ruínas Romanas de Milreu | «Poesias (des)confortáveis», música e poesia | ARCA, com a Banda Filarmónica de São Brás |
O ciclo continuou em Sagres a 26 de agosto — Dia Internacional da Lembrança do Tráfico Negreiro e da sua Abolição — e a 23 de setembro, com curadorias de Suzano Costa e Kitty Furtado.
Peças pensadas para aquele chão
«De Miami a Milreu» conta a história do cinema Miami, de Quarteira, obrigado a fechar portas para se abrir um furo de prospeção de petróleo. Adaptada pelo JAT a partir do Grupo de Teatro Comunitário Quarteira Fora da Caixa, a peça homenageia o antigo Cine-esplanada Mariani e todos os espaços culturais que fecham: o «desconforto» é o atropelamento da cultura em nome do desenvolvimento económico.
«As Carpideiras» nasceu ainda mais colada ao sítio. A criação da Panapaná, entre teatro e dança, honra os serviçais sepultados no «campo mortuário de Guelhim» — o enterramento que Estácio da Veiga identificou na zona agrícola da villa, na outra margem do Rio Seco — e, através deles, os que a escravatura forçou a abandonar os seus territórios. Direção artística de Neusa Dias, com Marta Gorgulho e Sara Martins na cocriação e interpretação.
Na manhã de 23 de julho, ainda em Milreu, a palestra volante de João Pedro Bernardes, professor da Universidade do Algarve, propôs um passeio orientado pelos aspetos «quase invisíveis» do sítio. Logo a seguir, «Poesias (des)confortáveis», da ARCA — Associação Recreativa e Cultural do Algarve, com a Banda Filarmónica de São Brás, cruzou música e poemas de Catulo, Horácio, Virgílio, Al-Mu'tamid, Camilo Pessanha, Camões, Jorge de Sena e Fernando Pessoa, com direção artística de Fernando Guerreiro e direção musical de Albano Neto.
Um ciclo de cinema dentro da fortaleza
«Libertar a Memória», promovido pelo Cineclube de Faro, explora a (des)colonização, a escravatura, a segregação social e as identidades de lugar; os curadores convidados têm em comum a proveniência, direta ou familiar, de territórios afetados pela colonização. A sessão de 22 de julho, com curadoria de Luca Argel, exibiu «Babás» (2010), documentário de Consuelo Lins, e «A que horas ela volta?» (2015), drama de Anna Muylaert. O ciclo tem coordenação artística de Luísa Baptista e curadoria literária de Marta Lança e do projeto Buala.
O lugar não é neutro: ver estes filmes dentro da fortaleza associada ao relato dos Descobrimentos carrega uma tensão que nenhuma sala de cinema reproduz.
O que une propostas tão diferentes?
Aqui entra a leitura, não o comunicado: o fio condutor é o lugar como coautor. Um cinema fechado à força soa diferente entre ruínas romanas; carpideiras que choram escravos ganham outro corpo sobre um campo mortuário servil; filmes sobre colonização pesam mais num monumento-símbolo da epopeia marítima. O monumento não é cenário: é argumento — e a mesma peça, noutra sala, seria outra peça.
Quem está por trás da programação
A programação é pública e regional; a criação vem do tecido associativo e artístico do Algarve. Na edição de 2023 aparecem um coletivo de teatro (o JAT), duas associações culturais e recreativas (a Panapaná e a ARCA), uma banda filarmónica (a de São Brás de Alportel, concelho do Museu do Traje), um cineclube (o de Faro) e um professor universitário. Ecossistema reconhecido pela própria programadora: apoiar o associativismo é atribuição da Unidade de Cultura.
Onde está a agenda de hoje?
A edição de 2023 é um documento, não uma agenda: datas e contactos de inscrição pertencem àquele verão. Para a programação corrente, duas páginas a distinguir — a da Unidade de Cultura da CCDR Algarve (cultalg.gov.pt), que publica o programa, e as das entidades gestoras dos monumentos, que regem o acesso diário. O registo desta edição lê-se na notícia original da Direção Regional de Cultura do Algarve.
Antes de sair de casa, procure «DiVaM» na programação da Unidade de Cultura e confirme a inscrição exigida — na edição documentada, a entrada era livre mas sempre mediante inscrição. Dentro do monumento, faça a pergunta que o programa sugere: o que ganha esta peça por acontecer aqui, e não numa sala qualquer? É a disciplina de leitura de lugar que o Caderno aplica em Património e arqueologia e acompanha na rubrica de Artes.



