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Algarve · PortugalPatrimónio / Cultura / Artes
Caderno do Sul

Revista independente sobre o património, os museus e as artes do Algarve: ler monumentos, preparar visitas e acompanhar a cultura da região.

Património / Caderno do Sul

Monumentos Megalíticos de Alcalar: cinco milénios

Perto de Portimão, uma aldeia pré-histórica murada e os seus túmulos megalíticos, classificados como Monumento Nacional, explicados para uma visita atenta.

Monumentos megalíticos de Alcalar, perto de Portimão.
Monumentos megalíticos de Alcalar, perto de Portimão. · Fotografia: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL / Wikimedia Commons · CC.

Os túmulos de Alcalar dizem, em pedra, o que nenhum texto da época escreveu: que há cinco mil anos a morte já era arquitetura e que a arquitetura já distinguia quem mandava. No lugar de Alcalar, a poucos quilómetros de Portimão, uma comunidade pré-histórica ergueu uma aldeia defendida por muros, trincheiras e taludes — e, junto das habitações, um conjunto de túmulos megalíticos hoje classificado como Monumento Nacional. A leitura proposta aqui segue a ordem em que o lugar foi pensado: primeiro o território dos vivos, depois o dos mortos.

Uma aldeia de muros, casas e mortos

Há cerca de 5.000 anos, no 3.º milénio a.C., fixou-se e viveu aqui uma importante comunidade pré-histórica. O assentamento estende-se por uma área arqueológica de mais de 25 hectares; o Museu de Portimão — que dispõe do Centro Interpretativo dos Monumentos Megalíticos, a cerca de nove quilómetros da cidade — descreve uma aldeia defendida por muros, trincheiras e taludes, com habitações construídas no seu interior e os túmulos edificados junto delas.

O detalhe decisivo é a proximidade: a necrópole não foi afastada do povoado, nasceu ao lado das casas. Ler isto como uma paisagem planeada para vivos e mortos ao mesmo tempo é interpretação — o que a fonte institucional garante é a contiguidade física —, mas é ela que muda a visita: em Alcalar, a fronteira entre a aldeia e o lugar dos mortos é fina o bastante para se pisar sem dar por ela.

Alcalar não é caso único no Algarve. No extremo oriental da região, a um quilómetro a nascente da aldeia de Santa Rita, na fronteira entre o barrocal e a serra, o Túmulo Megalítico de Santa Rita é descrito no Guia dos Museus do Algarve como testemunho pré-histórico com cerca de 4500 anos e características únicas no Sul de Portugal — e foi alvo de uma monografia publicada em colaboração com a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.

O que dizem os túmulos sobre o poder?

A frase-chave está na apresentação institucional: a relação desta comunidade com a morte está patente nas formas de construção dos diferentes tipos de sepulcros, desde as sepulturas coletivas até às especialmente destinadas aos chefes e aos seus familiares. A arquitetura funerária de Alcalar não é uniforme: há mortos de todos e mortos de alguns.

É aqui que a morte encontra o poder. Quando um grupo reserva trabalho, pedra e lugar de destaque para erguer sepulcros distintos para chefes e respetivas famílias, está a gravar na paisagem uma ordem social que pretende durar mais do que as vidas que enterra — leitura editorial, feita a partir da diferença de tratamento que a fonte descreve e não de qualquer documento da época, que não existe. O que as pedras mostram é a desigualdade no modo de enterrar; a forma concreta desse poder, os vestígios não a ditam.

Como ler o que resta no terreno?

ElementoO que as fontes dizemO que procurar na visita
Muros, trincheiras e taludesA aldeia era defendidaO esforço coletivo investido na defesa do lugar
Habitações do povoadoConstruídas dentro do perímetro defendidoA vida quotidiana ao lado do espaço funerário
Sepulturas coletivasUm dos tipos de sepulcro presentesO enterramento como prática de grupo
Túmulos de chefes e familiaresReservados a poucosA hierarquia gravada na diferença de construção
Dois monumentos abertos ao públicoContacto direto com a obraProcessos e materiais de construção ao alcance do olhar

O método é o mesmo diante de cada estrutura: perguntar a quem se destinava, como foi construída e quanto custou em trabalho essa diferença. Em Alcalar, a resposta mede-se em pedra.

Descobertos desde o século XIX, classificados como Monumento Nacional

Os monumentos megalíticos de Alcalar foram descobertos e explorados desde os finais do século XIX e estão classificados como Monumento Nacional. Dois desses monumentos funerários encontram-se abertos ao público — e é essa abertura que permite o contacto direto com os processos e os materiais utilizados na sua construção, coisa que nenhuma fotografia substitui. O conjunto é servido por um Centro de Acolhimento e Interpretação.

Para onde foram as peças escavadas?

Nem tudo o que a terra devolveu ficou em Alcalar. O Museu de Portimão sugere completar a descoberta dos monumentos com uma visita ao museu, para observar de perto algumas das peças originais encontradas nos diferentes monumentos e no povoado — o caminho mais curto, nas palavras da instituição, para um melhor entendimento do legado desta comunidade milenar. O museu ocupa o renovado edifício da antiga fábrica de conservas de peixe Feu Hermanos, dos finais do século XIX, na margem direita do Rio Arade, foi distinguido em 2010 com o Prémio Museu Conselho da Europa e tem como exposição de referência «Portimão, Território e Identidade». Sobre esse edifício e a memória industrial que guarda, ver o artigo a memória conserveira de Portimão.

A pré-história posta à prova das mãos

Para quem quer ir além do olhar, o Museu de Portimão anuncia um conjunto diversificado de atividades sobre a vida destas comunidades: visitas orientadas, o programa «Um dia na Pré-história», «Sons da natureza», «Caçadores da pré-história», «Construtores de monumentos» e oficinas de olaria (soenga), tecelagem, talhe de pedra e moagem. Um balanço da Unidade de Cultura da CCDR Algarve regista ainda um protocolo de colaboração com o Grupo de Amigos do Museu de Portimão dedicado precisamente ao projeto «Um dia na Pré-história — Monumentos Megalíticos de Alcalar». São propostas da entidade gestora: datas, inscrições e condições confirmam-se junto do museu, não nesta página.

Perguntas para levar na mochila

  • Por onde correm os muros, as trincheiras e os taludes — e que esforço de construção representam?
  • Onde ficam as habitações em relação aos túmulos — e o que diz essa vizinhança?
  • Entre os sepulcros, quais parecem coletivos e quais parecem reservados a poucos?
  • Nos dois monumentos abertos, que processos e materiais de construção se conseguem identificar?
  • Que peças vindas do povoado valem o desvio ao Museu de Portimão?

O gesto concreto fica para o fim do percurso: depois de ler o povoado e os sepulcros, cotejar no terreno a tabela acima e confirmar o que se viu nas peças originais guardadas no Museu de Portimão — mas antes de sair de casa, ver as condições do dia na página oficial dos Monumentos Megalíticos de Alcalar, no sítio do Museu de Portimão. E para treinar o mesmo método de leitura noutro regime de época, o passeio seguinte é Milreu, a villa que viveu mil anos; o enquadramento geral está na rubrica de Património e arqueologia.

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