A memória da indústria que fez Portimão não está num arquivo distante: continua dentro de uma fábrica. Na margem direita do rio Arade, o Museu de Portimão ocupa o edifício renovado da antiga fábrica de conservas de peixe «Feu Hermanos», datada dos finais do século XIX, e é ali que a cidade guarda o relato da atividade económica mais relevante de Portimão e do Algarve antes da mudança de paradigma para o turismo. A resposta curta à pergunta «onde fica hoje essa memória?»: no próprio chão fabril, da antiga lota do cais ao coração das linhas de enlatamento.
Da antiga fábrica Feu Hermanos ao museu
O Guia de Museus do Algarve (edição de 2019) descreve o equipamento como um «polo de irradiação cultural e observatório social permanente» — fórmula que se entende: a coleção é, em grande parte, a própria arquitetura e o circuito de trabalho que ela continha. A exposição de referência, «Portimão, Território e Identidade», organiza a síntese histórica do percurso socioeconómico e cultural da comunidade em três percursos: «Origem e Destino de uma Comunidade», «A Vida Industrial e o Desafio do Mar» e «Do Fundo das Águas». A memória conserveira não é, portanto, um anexo temático: ocupa um dos três eixos da identidade que o museu propõe, em articulação com a relação histórica profunda entre Portimão, o rio Arade e o Atlântico.
Que história contam os cinco núcleos?
O percurso parte do próprio espaço fabril — em especial da recuperada «Casa de Descabeço» — e acompanha, da lota ao coração das fábricas, o processo de fabrico, embalagem e promoção das conservas portimonenses. Divide-se em cinco núcleos:
| Núcleo | O que nele se lê |
|---|---|
| «Há Peixe no Cais» | A lota de Portimão como lugar central de chegada, venda e distribuição do pescado — o ponto de partida do trabalho nas fábricas |
| «Entre Apitos e “Sereias”» | Os apitos a vapor e as sirenes que chamavam os operários, e o esforço das deslocações a pé entre a casa e o trabalho |
| «A Casa do Descabeço» | A sala onde começava a sequência de operações que transformava o peixe em conserva |
| «Artes do Cheio, Artes do Vazio» | As duas secções do espaço fabril: o tratamento do peixe e o enchimento das latas; a produção de caixotes, chaves e latas litografadas |
| «Promoção — De Portimão para o Mundo» | As estratégias de divulgação e comunicação da indústria conserveira nos mercados nacional e internacional |
Entre apitos e «sereias»: o trabalho por trás da lata
Os títulos não são decorativos. Chamar «sereias» às sirenes das fábricas é reconhecer que o ritmo da cidade era ditado pela indústria: o som chamava para o trabalho e marcava o vaivém a pé entre a casa e a linha. O percurso sublinha esse esforço operário e destaca, na atividade económica mais relevante da cidade e da região, o papel de homens e mulheres.
Na «Casa do Descabeço», sala recuperada por um intenso processo de restauro do interior, conservam-se equipamentos originais utilizados antes do encerramento — o transportador de peixe e as mesas de trabalho — e compreende-se a função que ali se cumpria: a primeira fase da cadeia de preparação do peixe e da produção das conservas.
O que separava o «Cheio» do «Vazio»?
O espaço fabril dividia-se em duas secções de lógica oposta e complementar. No «Cheio», manuseava-se e tratava-se o peixe e enchiam-se e fechavam-se as latas. No «Vazio», produziam-se os caixotes, as chaves e as próprias latas, impressas em litografia a partir da folha-de-flandres. A leitura é duplamente útil: mostra que uma fábrica de conservas era também uma fábrica de embalagem — e que a lata litografada era objeto industrial e suporte de publicidade. É essa segunda vida da lata que o núcleo «Promoção — De Portimão para o Mundo» explora, através das estratégias de divulgação que levaram as conservas portimonenses aos mercados nacional e internacional.
A memória conserveira para lá do Arade
A memória industrial da conserva não pertence só a Portimão. O mesmo Guia de Museus do Algarve identifica a arqueologia industrial como uma das áreas temáticas características da museologia algarvia deste milénio e regista, na outra ponta da região, o Núcleo Museológico da Indústria Conserveira: instalado no piso térreo do Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, em Vila Real de Santo António, e aberto ao público desde 2007, reúne testemunhos da tradição pesqueira e conserveira local. A exposição detém-se sobre o «Ciclo do Atum» e o «Ciclo da Sardinha» e percorre as fases do copejo à exportação, até ao vazio e à litografia — as mesmas que em Portimão se leem em espaço real.
Os dois equipamentos integram uma paisagem maior: a Rede de Museus do Algarve, nascida em 2007 como rede horizontal de partilha entre pares, que reúne vinte instituições de caráter museológico e cultural. Sobre essa organização, ver o artigo dedicado aos museus do Algarve em rede.
Um museu premiado e em rede
O Museu de Portimão recebeu o prémio «Museu Conselho da Europa» em 2010 e integrou a Rede Portuguesa de Museus já em 2001 — no mesmo ano do Museu Municipal de Tavira, num conjunto pioneiro de quatro museus algarvios credenciados na rede nacional. Desde 2010, o equipamento soma às salas expositivas uma Oficina Educativa, um Centro de Documentação e Arquivo Histórico, um Laboratório de Conservação e Restauro e um Auditório, e dois espaços polivalentes para exposições temporárias.
O museu gere ainda, a cerca de nove quilómetros da cidade, o Centro Interpretativo dos Monumentos Megalíticos de Alcalar, e sugere completar a visita aos túmulos com a observação, no museu, das peças originais ali encontradas — o mesmo princípio aqui aplicado à indústria: o objeto e o lugar de onde veio.
O que procurar dentro da fábrica
- Onde começa a cadeia: identificar, na «Casa do Descabeço», o transportador de peixe e as mesas de trabalho originais.
- Que sons governavam o dia: apitos a vapor e sirenes como relógio coletivo da cidade operária.
- Que metades formavam a fábrica: as tarefas do «Cheio» e as do «Vazio».
- Que imagem vendia a lata: as litografias em folha-de-flandres como publicidade impressa.
- Que mundo consumia Portimão: os mercados para onde a conserva partia.
Antes da visita, confirme as condições de acesso na página oficial do percurso «A Vida Industrial e o Desafio do Mar», mantida pelo Museu de Portimão. No espaço, inverta a leitura: percorra o edifício como quem nele trabalhava — do cais da lota ao «Cheio», do «Vazio» ao caixote que partia para o mundo. É a atenção ao lugar que pedem os outros equipamentos da rubrica Museus, memória e saberes: em Portimão, a fábrica é ela própria a peça principal.



